Sistemas internos criados em uma tarde com IA são uma vitória. Até alguém perguntar quem mantém aquilo no ar.
Nos últimos meses, virou cena comum nas empresas: um analista de operações abre uma conversa com uma IA, descreve em português o que precisa, e antes do café acabar tem um sistema interno funcionando. Resolve um problema real. Anima a área inteira. Em poucas semanas, áreas que sequer faziam parte do mundo da tecnologia estão criando suas próprias ferramentas.
Isso ganhou nome — vibe coding — foi eleita a palavra do ano de 2025 pelo Dicionário Collins, e está mudando a forma como o software entra nas empresas. A boa notícia: produtividade dispara, ideias viram protótipo no mesmo dia, áreas de negócio param de esperar na fila do TI. A notícia menos comentada: alguém vai precisar manter aquilo. E é aí que a conta começa a ser calculada.
O ganho de produtividade é real e não dá para negar. O problema começa quando o número de "sisteminhas" passa de cinco, dez, vinte — espalhados em planilhas, painéis, automações e integrações criadas por pessoas que estava resolvendo um problema legítimo, mas que nunca foi engenheira de software.
Esse fenômeno tem outro nome: shadow IT. Segundo dados da Gartner citado em diversas análises do setor, 41% das organizações já reportam o uso de soluções de tecnologia fora do controle da TI. Com vibe coding, esse número tende a crescer rápido.
O que parece ágil hoje vira problema amanhã por três motivos bem específicos:
A frase que melhor resume o momento: velocidade só é vantagem quando vem acompanhada de governança.
Em algum momento — geralmente entre o terceiro e o décimo "sisteminha" — alguém na liderança faz a pergunta que precisa ser feita: quem é dono disso aqui?
Essa é a pergunta de inflexão. E ela costuma vir embrulhada em outras três, mais difíceis:
Não existe resposta única. Existe a resposta certa para o seu momento de maturidade, tamanho de operação e nível de dependência tecnológica do negócio.
A maior virada conceitual aqui é entender que software, depois que nasce, não acaba. Ele vive. Precisa de atualização, monitoramento, correção, evolução e segurança contínuas.
Tratar cada sistema interno como "projeto" — algo que tem fim — é a origem de boa parte da dor que as empresas estão sentindo agora. Tratar como "produto" — algo que tem ciclo de vida — obriga a decidir, desde o primeiro dia:
Essas perguntas não precisam virar burocracia. Precisam virar acordo. A diferença entre sustentável e insustentável mora exatamente aqui.
O problema não é a IA gerando código — esse trem não volta para a estação. O problema é a ausência de uma estrutura mínima que torne esse código sustentável depois.
A boa notícia é que essa estrutura não precisa ser pesada. Em geral, ela cabe em quatro decisões:
Quatro decisões. Não doze. Não um framework de cinquenta páginas. O suficiente para transformar caos em sistema — e sistemas em ativos.
Nossa referência é o livro O Guia do Mochileiro das Galáxias. No livro, "42" é a resposta para a vida, o universo e tudo mais — só que ninguém ali sabia exatamente qual era a pergunta.
Essa é a virada: somos nós que fazemos as perguntas certas. A maior parte dos projetos de software não trava no código — trava no diagnóstico mal feito. Quem é dono desse sistema? Quanto custa mantê-lo por três anos? Que problema ele resolve daqui a dois? Que parte disso é dívida disfarçada de funcionalidade?
O papel de uma consultoria de verdade não é chegar com a resposta pronta. É fazer as perguntas que ninguém estava fazendo, e a partir delas construir a solução certa. Por isso o nome se escreve junto, em minúsculo: quatrodois.
A IA não vai parar de acelerar o desenvolvimento de software. A pergunta que importa, daqui pra frente, é se a sua estrutura de sustentação está acelerando junto.
— Equipe quatrodois